Naquela bela tarde de sol, espelhando um lindo dia de Primavera, algo de estranho se passou. A menina Nela, naquele vai e vem, a subir e a descer o escadote, ao deslocá-lo de um lado para o outro, fez um ruído esquisito, Trraakkk!... E ao mesmo tempo soprou de desespero, por conhecer o livro e não o encontrar no seu lugar, nem se lembrar onde ele estaria.
Nesta mesma altura, os dois jovens amigos, ele de sardas e ela de tranças, aproximaram-se e tocaram no Maravilhas, com intenção de lhe fazer uma festinha. Ao mesmo tempo ouve-se a campainha soar um dlim dlom bem forte na porta de madeira de carvalho e um barulho muito estranho, anunciando a presença de alguém. O Maravilhas, gato meigo, esperto e um bichano muito sossegado, assustou-se. Habituado às rotinas calmas, na companhia da menina Nela e do senhor Liácio, ao ver pessoas desconhecidas e um barulho fora do normal, ficou muito agitado. Miou bastante alto e ao mesmo tempo, deu um valente salto, tudo isto fazendo parte do seu instinto animal. Acabando por fugir para debaixo da velha mesa de madeira, escondendo-se próximo do alçapão lá existente.
O Senhor Liácio, a menina Nela e os dois jovens amigos ficaram bastante preocupados e assustados com o que se estava a passar. O senhor Liácio, uma pessoa bastante destemida, dirigiu-se apressadamente para a porta de madeira de carvalho, verificando se alguém teria entrado. Qual não é o seu espanto, quando se deparou com o expositor que estava na entrada, caído e alguns livros espalhados pelo chão. Exclamou:
─ Nela!... O que terá acontecido, o expositor está tombado, alguns livros estão espalhados pelo chão?!
A Menina Nela aproximou-se, e muito preocupada com o que estava a ver, de imediato se lembrou:
─ Senhor Liácio, está a janela um pouco aberta e a corrente de ar fez tombar o expositor…
Exclamou ainda o senhor Liácio:
─ Mas a campainha tocou fortemente e ninguém entrou! Algo de estranho se passa. Estamos perante um enigma... Será que o nosso Maravilhas fugiu? Os gatos são muito imprevisíveis!
Os dois amigos, muito surpreendidos e um pouco assustados, aproximaram-se, tentando ajudar a desvendar o que estava a acontecer. Verificaram que o sensor da campainha se encontra frente ao expositor. Talvez tivesse acionando a campainha, com o movimento brusco do mesmo ao tombar. O senhor Liácio não ficou convencido com o que diziam e o que se estava a passar.
Naquele momento, ouvem-se passos próximos da livraria: “Quem vem lá?...” O senhor Timóteo, amigo de longa data do senhor Liácio, grande leitor, contador de histórias e uma pessoa que gosta muito de animais.
Trazia ao colo o Maravilhas. O senhor Liácio ficou muito contente ao ver o seu amigo, mas surpreendido por ele trazer o Maravilhas ao colo. A menina Nela e os dois amigos, ao verem o senhor Timóteo com o gato Maravilhas, perguntaram-lhe onde o tinha encontrado. Ele respondeu que, ao dirigir-se à livraria, viu o bichano a sair disparado porta fora. Conhecendo bem o animal, foi no seu encalço até ao jardim onde ele estava escondido, muito assustado. Estando familiarizado com ele acalmou-o e agarrou-o, vindo entregá-lo ao seu amigo.
─ Mais um caso estranho! - disse o senhor Liácio. - Mais uma dúvida: como foi possível o Maravilhas ter fugido para a rua?
O Senhor Timóteo, pessoa bastante entendida em desvendar mistérios, esclareceu:
─ Ora bem, aqui há gato! E temos aqui o gato de volta, mas temos que saber como o gato fugiu?
Acrescenta o senhor Liácio:
─ E como o livro dos gatos desapareceu?...
A menina Nela e os dois amigos já tinham levantado o expositor, e estavam a arrumar os livros, inesperadamente a menina Nela dá um grito de alegria:
─ Senhor Liácio! Encontrei!... Encontrei!...
Pergunta o senhor Liácio:
─ Encontraste o quê, Nela?
─ Encontrei o livro “Histórias, Aventuras e Curiosidades sobre Gatos”. Mas como é possível o livro estar aí e nós não nos lembrarmos? Acho muito estranho.
─ É verdade, senhor Liácio, está aqui, está aqui!... - disse a menina Nela.
O senhor Timóteo, apercebendo-se de toda esta confusão, acrescentou:
─ Amigo Liácio, como te deves recordar na última vez que estive aqui contigo e com a menina Nela, levei o livro dos gatos para ler estas formidáveis histórias sobre gatos. Como já o li, hoje mesmo vinha entregá-lo, mas ao deparar-me com o Maravilhas tão assustado a fugir, deixei cair o livro à entrada da livraria e corri atrás do bichano.
O Senhor Liácio, agora mais convencido e muito contente com a presença do seu velho amigo, virou-se para todos e disse:
─ Acho que todo este enigma está desvendado.
─ Quando os dois amigos, ele de sardas e ela de tranças apareceram, a menina Nela ficou surpreendida e esqueceu-se de fechar a janela, arrastou ruidosamente o escadote no chão, a corrente de ar tombou o expositor, e o nosso Maravilhas, tamanho susto apanhou, não fosse o meu grande amigo Timóteo, teria desaparecido.
─ Como sempre, no fim da tempestade vem a bonança.
─ Estou muito contente por o livro ter aparecido e o nosso Maravilhas não ter desaparecido. Quem procura sempre encontra. Vamos então recordar algumas histórias interessantes.
O senhor Liácio, o seu amigo Timóteo, a menina Nela e os dois amigos, sentaram-se à volta da velha mesa de madeira, colocada ao fundo da biblioteca.
No jardim, com lindas flores, o Sol iluminava com uma luz fascinante e ouviam-se os passarinhos a cantar, chilreando de alegria.
A menina Nela começou a desfolhar o interessante livro “Histórias, Aventuras e Curiosidades sobre Gatos”, começando a ler uma linda história. Ao mesmo tempo, ouviu-se a tampa do alçapão a fazer um barulho esquisito e um miar meigo do gato Maravilhas que sorrateiramente, como era habitual, se roçou nas pernas do senhor Liácio e da menina Nela, sentando-se entre a menina de tranças e o rapaz de sardas, ronronando insistentemente de satisfação, divertindo-se com as tranças da menina. Ambos estavam deliciados com as meiguices do bichano, sendo retribuído com muitas festas e ao mesmo tempo alisando-lhe o seu lindo pelo macio.
Todos juntos, leram e contaram várias histórias.
Passaram uma bela tarde muito divertidos, todos muito felizes,
Tornaram-se grandes amigos.
Sofia Gama, n.º18, 5.º A